Toda comunidade nasce olhando para cima. Há sempre um ponto no horizonte que parece justificar o esforço, a disciplina, a renúncia e a união. Enquanto esse ponto está distante, as diferenças internas parecem pequenas. Há uma montanha para subir, uma ameaça para enfrentar, uma obra para construir, uma liberdade para conquistar. Pessoas que jamais seriam iguais caminham juntas porque existe alguma coisa maior do que cada uma delas exercendo gravidade sobre todas. Chamamos isso de coesão.
O problema começa quando chegam. Existe um erro antigo na imaginação humana, talvez tão antigo quanto a primeira tribo que conseguiu atravessar um inverno e acreditou que o próximo seria diferente. Confundimos conquista com permanência. Transformamos uma posição alcançada em destino final. Depois de tanto caminhar, olhamos em volta e pensamos que finalmente chegamos ao céu.
E é exatamente ali que começa a queda.
Conquistar exige energia extraordinária. Manter exige algo talvez ainda mais difícil; produzir continuamente essa energia depois que desapareceu a urgência que a criou. Durante a subida, ninguém precisa explicar por que é necessário continuar. A própria montanha explica. No alto, entretanto, a paisagem muda. O perigo parece distante, a memória do esforço começa a desaparecer e aquilo que antes era responsabilidade coletiva lentamente se transforma em conforto adquirido.
Então aparece a pequena fissura. Ela quase nunca parece importante no começo. Uma frustração aqui, uma disputa ali, uma diferença que antes cabia dentro de um propósito maior. Nada capaz de derrubar coisa alguma. Apenas uma goteira.
Mas goteiras não discutem com alicerces. Apenas pingam.
E seres humanos são especialmente bons em se reunir ao redor das próprias insatisfações. Para cada pequena dor eventualmente aparecerá alguém oferecendo um lenço. Para cada descontentamento surgirá uma explicação perfeita. Para cada grupo que se sente esquecido haverá alguém prometendo que existe um lugar onde ninguém jamais será esquecido novamente.
Não é necessário que exista conspiração alguma para que isso aconteça. Basta humanidade. A semente sempre esteve lá.
Enquanto existe um propósito comum forte, ela permanece pequena. Quando o propósito desaparece porque todos acreditam que chegaram, ela encontra espaço, água e luz. Pequenas divergências tornam-se identidades. Identidades tornam-se grupos. Grupos criam suas próprias linguagens, suas próprias histórias e, pouco a pouco, aquilo que antes possuía um centro passa a possuir vários.
Nesse momento, qualquer força externa que deseje enfraquecer aquela comunidade já não precisa derrubar seus muros. Basta esperar uma porta abrir por dentro.
Foi assim incontáveis vezes porque talvez tenhamos ensinado a história de maneira errada. Falamos muito sobre como chegar. Falamos sobre vitória, crescimento, liderança, domínio, liberdade, prosperidade, excelência. Construímos monumentos para quem alcançou o topo. Quase nunca construímos monumentos para quem permaneceu acordado depois.
E talvez seja esse o verdadeiro significado de si vis pacem, para bellum. Se queres a paz, prepara-te para a guerra não precisa significar viver procurando inimigos. Significa compreender que a paz não é um lugar onde finalmente podemos abandonar aquilo que tornou possível conquistá-la.
Paz exige manutenção. Liberdade exige manutenção. Conhecimento exige manutenção. Empresas exigem manutenção. Comunidades exigem manutenção. Relações exigem manutenção. Coesão exige manutenção.
Nada importante permanece apenas porque mereceu permanecer.
Talvez por isso a solução seja mais simples do que parece. Não precisamos criar melhores discursos para lembrar todos de vigiar. Não precisamos de alguém caminhando eternamente pelos corredores dizendo que ainda existem riscos, que ainda existem fissuras, que ainda existe trabalho a fazer.
Precisamos remover a ideia de que haverá um momento em que esse aviso deixará de ser necessário.
Precisamos deletar o céu.
Porque sem céu não existe chegada. Existe apenas o ponto em que estamos agora.
Uma empresa não venceu. Ela funciona hoje. Uma comunidade não está consolidada. Ela permanece coesa hoje. Uma ideia não triunfou. Ela continua sendo defendida hoje. Uma liberdade não foi conquistada para sempre. Ela existe hoje.
O topo deixa então de ser um trono. Vira acampamento. Descansamos, contemplamos o caminho percorrido, comemoramos quem chegou conosco, cuidamos dos feridos, reparamos o que quebrou e seguimos.
Talvez essa seja a diferença entre estruturas que apenas crescem e estruturas que aprendem a durar. As primeiras sonham com o céu. As outras sabem que amanhã haverá estrada.
E quando uma comunidade inteira compreender isso, ninguém mais precisará ficar no alto da torre gritando para que todos permaneçam acordados. Porque ninguém estará esperando o momento de dormir.
Delete o céu.